Por Daniel Sottomaior
( dica de @kenmori )
Na primeira edição de janeiro, o Caderno 2 do Estado de S. Paulo presenteou seus leitores com uma página inteira de previsões feitas por três mÃsticos para este ano. Um babalorixá, uma astróloga e um tarólogo desfiaram seu, digamos, conhecimento, respondendo à s mesmas sete perguntas feitas pela coluna de Sônia Racy. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi uma torrente de platitudes e inespecificidades, desta vez coroada com a inédita afirmação de que uma lei de Newton será violada este ano!
Apesar de ser um “jornalão”, não é a primeira vez que o Estadão publica, sem qualquer constrangimento, uma matéria desse tipo. Em 2005, “O futuro segundo Quiroga” fez matéria de capa no Caderno 2, e todas as crÃticas que fiz à quela matéria neste Observatório (ver aqui), cinco anos atrás, continuam válidas em seus menores detalhes ao último descalabro jornalÃstico do Estadão. Talvez eu devesse ter entrado no lucrativo business das previsões: os mÃsticos continuarão a ganhar dinheiro com a credulidade alheia e desta vez receberão entusiástica ajuda de jornais e jornalistas que deveriam zelar pelos princÃpios básicos da credibilidade das fontes e da checagem de suas afirmações.
O jornal parece que não se importa com a precisão e veracidade das afirmações de suas fontes. Ano após ano, milênio após milênio, os divinadores vêm errando espetacularmente, o que já não surpreende mais ninguém. O que deveria espantar qualquer jornalista com um mÃnimo de dignidade é que agora esses profissionais do erro estão embolsando credibilidade, fazendo novos clientes e inflacionando seus preços à s custas da mÃdia que pretende se dizer crÃtica e investigativa.
Violação de leis naturais
Em 2005, tÃnhamos acabado de passar por um tsunami que não foi previsto por ninguém, mas isso não impediu a repórter de entoar loas à capacidade do astrólogo Quiroga. A matéria deste ano foi publicada no mesmo dia de uma importante tragédia em Angra, que incidentalmente por muito pouco não me custou a vida. Em ambos os casos, ninguém se lembrou de questionar o expertise de peritos que não conseguem apontar os fatos mais marcantes do ano nem quando eles estão bem diante dos seus olhos.
Em 2005, Quiroga desfilou seu saber cientÃfico negando a evolução das espécies. Desta vez, o tarólogo Teruo Yamada afirmou que acontecerá “uma outra coisa intrigante em algumas regiões do planeta: o dia será muito mais longo do que o normal (presença do Sol). Mais um motivo para as fortes ondas de calor”.
Não é preciso ser grande gênio para perceber que, em cada latitude, a duração do dia depende apenas da velocidade de rotação da Terra e da posição do Sol com relação ao eixo de rotação planeta, determinada indiretamente por nossa posição na órbita de translação. Ironicamente, ambas as coisas são conhecidas e podem ser previstas com enorme precisão – não pelos mÃsticos, claro, mas pela boa e velha ciência. A rotação da Terra, por exemplo, atualmente tem incerteza de cerca de uma parte em cem milhões.
Por isso, embora possa parecer trivial, uma variação na duração do dia de um décimo de segundo, entre um ano e outro, já representaria uma violação da lei da conservação do momento angular, uma das leis fÃsicas fundamentais de nosso universo. Assim, a previsão do eminente tarólogo implicaria nada menos do que um milagre, que é o nome que se dá à violação de leis naturais.
“Cara eu ganho, coroa você perde”
Mais incrÃvel ainda seria o dia ficar mais longo que no ano anterior apenas em algumas regiões da Terra, enquanto em outras permanece o mesmo! Para isso acontecer, seria preciso mudar até a geometria euclidiana, como pode constatar qualquer pessoa com uma lâmpada e uma maçã na mão. Esse é um dos problemas da suspensão de senso crÃtico – ou ausência, não sei – necessária para publicar semelhantes patacoadas: chega-se inevitavelmente ao vale-tudo do besteirol. Já que vamos dar crédito aos videntes, por que não passar por cima de qualquer outro resquÃcio de lógica?
Vale a pena apontar em maior detalhe algumas das técnicas utilizadas desde sempre para incrementar a aparência de acertos das previsões. Como toda ilusão de mágica, uma vez conhecido o segredo, o truque se torna elementar. Mas nem por isso deixa de ser eficaz. Então, aqui vai um rápido manual de como acertar sempre, seguido à risca pelos profissionais da área.
Primeiro: seja generoso nas obviedades. “Vencer não será fácil” e “a vitória dependerá do empenho de cada jogador” foram as “previsões” do babalorixá para a Copa. Segundo ele, “amor, paz, compreensão e justiça são ideais que a humanidade pode perseguir”. Para o tarólogo, “a intenção do nosso presidente é dar voos mais altos e deixar alguém no seu lugar”.
Segundo: nunca diga nada com precisão. Em 2010, a astróloga revelou que “o que estiver por baixo será revelado”, “haverá pressão sobre o regente do executivo” e “revelações de grandes corrupções [sic], retaliações e revoluções no jogo de forças. E isso se refletirá no aspecto econômico”.
Terceiro: diga que uma coisa pode acontecer. Ou não. Assim você leva o crédito de qualquer jeito. Por exemplo, a astróloga afirmou que “Dilma tem a máquina a seu favor” (vide primeira regra) e “seu mapa tem bons aspectos”. A seguir, lembrou que o jogo pode virar. Marina também “tem boas chances do ponto de vista astrológico”, mas “suas chances são remotas”. Essa é a técnica “cara eu ganho, coroa você perde”. Com ela, no ano que vem basta selecionar adequadamente as citações para criar um impressionante registro de “acertos”.
A promoção do misticismo
Quarto: faça afirmações infalseáveis – ou seja, que não têm como ser desmentidas. Para o babalorixá, “2010 será regido por Oxum e Oxalá, com forte influência de Ibejo e Xangô” (alguém tem como provar o contrário?). Para a astróloga, existe “uma forte tensão no céu”. Para o tarólogo, “a economia tomará nova consciência sobre o dinheiro”, o que quer que isso signifique.
Quinto: aposte na continuação de tendências atuais. O mundo nunca muda radicalmente de um ano para outro. “As catástrofes naturais estarão relacionadas à s águas” (vide primeira e segunda regras) e “Lula continuará em alta”, diz o babalorixá. Para o tarólogo, “há muita sujeira dos governantes para vir à tona” (vide primeira e quarta regras).
Sexto: consiga um jornal de renome para publicar tudo que você disser, independentemente de quão inverossÃmil ou auto-evidente. Isso piora a imagem dele, mas melhora a sua.
O que leva um jornal destacado a se render a tamanhas atrocidades? Como pode o padrão de jornalismo variar tão abruptamente de um dia para o outro? Ou será de um caderno para o outro? Talvez o clima de relativismo de um caderno de cultura contamine a redação de maneira tão profunda que valores como veracidade e confiabilidade deixem de ser relevantes na determinação da pauta. De qualquer maneira, a publicação de “previsões” que só fazem sentido para leitores de, digamos, determinados coloridos mÃstico-religiosos, dificilmente se encaixa em um caderno de cultura.
Será que o fato de haver leitores interessados é razão suficiente para publicar uma matéria que atenta contra princÃpios básicos do bom jornalismo? Existirá algum motivo respeitável para promover misticismo sob o tÃtulo de jornalismo cultural ou tudo não passou de um grande exercÃcio de proselitismo idiossincrático que voou abaixo do radar do jornal, “sem querer, querendo”? Se essas previsões são quentes e úteis, deveriam ser utilizadas com mais frequência, e também em outros cadernos. E se não são, por que engambelar o leitor com elas?

16:54 on janeiro 17th, 2010 1
[...] Fonte: Observatório da Imprensa, O Bruxo de Santos [...]
22:39 on janeiro 17th, 2010 2
Vou fazer algumas previsões:
Os crentes ficarão cada dia mais chatos
O papa chico bento vai abrir a boca e despejar uma torrente de asneiras
Mais artistas que sairem da mÃdia vão se tornar evangélicos e passarão a cantar músicas gospel
O diabo não vai mais aguentar crentes hipócritas chegando ao inferno e vai cometer suicÃdio
9:05 on fevereiro 10th, 2010 3
Depois de ler essa previsão fiquei bastante assustado: “desta vez coroada com a inédita afirmação de que uma lei de Newton será violada este ano!”
Tinha acabado de ler ontem na New Scientist que a Segunda Lei da Termodinâmica havia sido violada.
http://www.newscientist.com/article/dn2572-second-law-of-thermodynamics-broken.html
Estariam os astrólogos corretos desta vez?
Não foi dessa vez, dentre tantas contribuições de Newton, a segunda lei da termodinâmica não é uma delas… Hahahaha
15:13 on fevereiro 11th, 2010 4
Ai… isso dói. Um jornal respeitável, se tornando, aliás, tornando seus leitores vÃtimas de golpistas é de doer.
Por outro lado, a crença cega no absurdo que é ( ou que se tornou ) a ideologia religiosa, tem algumas consequencias mais sérias no local onde nascem a maioria dos formadores de opinião, os EUA.
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2010/02/09/AR2010020903796.html
A matéria apresentada no link fala sobre o estado da Virginia ter lançado uma nota proibindo empresas de implantar microchips em seus funcionários. E viva a democracia e os direitos do cidadão. O que tem de errado nisso ? Nada. O que me chamou a atenção foi uma das justificativas para essa proibição.
O responsável pela nota acredita que o implante de microchips podem remeter a profecia biblica onde as pessoas seriam marcadas pelo sÃmbolo da besta e não poderiam mais nem fazer compras sem ela. Uma besta tecnologica, onde NEO e TRINITY quando precisamos deles ?